Dilma é entrevistada por Bonner e Patrícia Poeta (Foto: divulgação/Rede Globo)
Em seu programa no dia da morte de Eduardo Campos, Sonia Abrão, apresentadora do "A Tarde é Sua", da RedeTV!, fez questão de fazer uma observação: achara que, na noite anterior, William Bonner havia sido muito duro com o candidato do PSB na série de entrevistas que o "Jornal Nacional" vem fazendo com os presidenciáveis. No Twitter peessedebistas reclamavam igualmente da forma vigorosa com que Aécio Neves havia sido questionado e desafiavam: "vamos ver se com a Dilma eles farão o mesmo". Então, ontem à noite, numa entrevista tensa onde ninguém deixava ninguém falar, petistas foram às redes sociais reclamar do teor da sabatina. Bem, se todos estão reclamando, então o "Jornal Nacional" provavelmente acertou a mão.

Faz algum tempo que a Globo tem se esforçado para mostrar um novo tipo de jornalismo. Isso ficou notório desde que Carlos Henrique Schroder, jornalista "das antigas", assumiu a direção geral da emissora, em janeiro de 2013. Poderosíssima e senhora absoluta da audiência, a Globo tem um certo complexo quando se fala de jornalismo. Foram anos acumulando a fama de "porta-voz do poder" e "manipuladora da informação". Muito dessa reputação, convenhamos, é culpa da própria emissora.
Mas qualquer um que não use termos do tipo "lacaios do imperialismo" e "imprensa golpista" consegue enxergar que a Globo tem se esforçado para ganhar uma imagem de imparcialidade. Não é tarefa fácil. A série de entrevistas do "Jornal Nacional" é um ponto a favor.

A preocupação com a isenção é tão grande que até a sequencia dos entrevistados foi decidida em sorteio e com presença de auditores dos partidos. Começou com Aécio Neves - a primeira vítima.
E eis o candidato tucano ali, simpático, galã, sorrindo para Patrícia Poeta (ninguém pode condená-lo; eu também sorriria). Quando a bateria de perguntas começa, Aécio percebe que: 1) Patrícia Poeta não vai retribuir o sorriso, 2) Ela e William Bonner vieram para colocar o dedo na ferida. Em vez do clássico "policial mau/policial bonzinho", a opção foi pelo "policial mau/policial-gata-que-pode-ser-muito-pior". Nada de morde-e-assopra. O estilo era um morde e o outro joga sal.

Não foi diferente com Eduardo Campos. O candidato do PSB começou com o sorriso protocolar de campanha e acabou seus 15 minutos com uma clara expressão de desconforto. Aqui vale uma ressalva: a morte do Campos é uma terrível tragédia; a perda de um pai de família, um homem público com futuro promissor. Nada disso, porém, tem a ver com planos de governo, propostas políticas e deslizes cometidos em administrações passadas. Bonner e Patrícia fizeram os questionamentos que tinham de ser feito e ponto.
Diferentemente das anteriores, Dilma protagonizou uma entrevista confusa. Demorava-se nas respostas e não permitia os apartes de Bonner ou Patrícia. Talvez a assessoria da presidente tenha estudado as outras sabatinas. Afinal, nada mais seguro do que prolongar uma resposta para evitar outra.
Esse é o ponto fraco desse formato de entrevista com apenas 15 minutos: uma vez que se percebe a dinâmica, é fácil driblar o tempo sem entrar em temas mais espinhosos.
No geral, contudo, as entrevistas do "Jornal Nacional" fizeram bem para a imagem da emissora. Que venham os debates.