Pesquisadores criaram abaixo-assinado pedindo explicações a autores.
Estudo francês divulgado na semana passada teve grande repercussão.
Camundongo com tumor usado em pesquisa com
transgênicos na França (Foto: Criigen/AFP)
transgênicos na França (Foto: Criigen/AFP)
Uma pesquisa publicada na semana passada, que ligou o consumo de milho transgênico ao surgimento de tumores em cobaias, está sendo motivo de debates no meio científico.
Um grupo de cientistas criou um abaixo-assinado para pedir aos autores
que divulguem os dados completos do estudo, para que a argumentação se
torne mais clara para todos. No início da tarde desta quarta (26), já
havia mais de 350 assinaturas.
Os cientistas dizem que o trabalho liderado por Gilles-Eric Seralini,
professor da Universidade de Caen, na França, publicado pela revista
“Food and Chemical Toxicology”, omite dados que comprometem a
compreensão da pesquisa.
Alimentos transgênicos são aqueles modificados em seu material
genético, com o objetivo de alterar suas características naturais,
aumentando sua produtividade.
Os críticos questionam a metodologia usada pela equipe de Seralini. No
estudo, diferentes grupos de camundongos consumiram três tipos de milho:
um transgênico, sem herbicida; um transgênico tratado com Roundup – um
herbicida bastante comum –; e um milho não transgênico tratado com
Roundup.
No entanto, segundo os que questionam o trabalho, os roedores receberam
diferentes quantidades do alimento. Além disso, haveria também
diferenças entre o restante da alimentação dos animais – o que eles
comeram, além de milho.
“Qualquer conclusão que se tirar desse estudo não é válida”, afirmou a
bióloga Lúcia de Souza, da Iniciativa de Pesquisa e Regulação Pública,
que trabalha na Suíça, numa entrevista coletiva por telefone organizada
pelo Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), uma organização
brasileira que tem o objetivo de divulgar informações "sobre a
biotecnologia e seus benefícios".
“É um artigo alarmista e, na minha opinião, pouco fundamentado”,
concordou Eduardo Romano, que trabalha com pesquisas de transgênicos na
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, na mesma entrevista coletiva
do CIB.
Já na última semana, no dia seguinte à divulgação do seu trabalho, o
autor Gilles-Eric Seralini havia reagido às críticas. "Este estudo foi
avaliado pela melhor revista mundial de toxicologia alímenticia, que
levou muito mais tempo do que as pessoas que reagiram num prazo de 24
horas, sem ler o estudo", disse ele à agência Reuters na última
quinta-feira.
"Estou esperando por críticas de cientistas que já publicaram material
em revistas ... sobre os efeitos dos organismos geneticamente
modificados e pesticidas na saúde, a fim de debater de forma justa com
colegas que são verdadeiros cientistas, e não lobistas".
A Comissão Europeia pediu à Autoridade Europeia para a Segurança dos
Alimentos, a Aesa, que verifique os resultados do estudo francês e
relate suas descobertas.
"O Mandato da Aesa é verificar o que este grupo de cientistas
apresentou, para observar as suas condições de pesquisa, ver como os
animais foram tratados", disse o porta-voz para a saúde da Comissão,
Frederic Vincent.
FabricanteA Monsanto, fabricante do herbicida e do
milho transgênico, por sua vez, publicou nota afimando que o "estudo
não atende as normas mínimas aceitáveis para esse tipo de pesquisa
científica, as descobertas não são fundamentadas pelos dados
apresentados e as conclusões não são relevantes para efeitos de
avaliação de segurança".
Segundo a empresa, não há informações essenciais sobre a forma como a
pesquisa foi conduzida, e os dados apresentados não suportam as
interpretações do autor. "O protocolo de pesquisa não atende às normas
da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)"
alega a companhia, destacando ainda que "a fonte e a qualidade do milho
utilizado não ficam claras".
Outro problema apontado é que "as taxas de mortalidade e incidência de
tumores em todos os grupos se encaixam nas normas históricas para esse
tipo de ratos de laboratório, que é conhecido por sua alta incidência de
tumores".
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