Catador observa esposa recolhendo resíduos em montanha de lixo (Foto: Silvio Muniz/G1)
Dezenas de trabalhadores de Mongaguá, no litoral de São Paulo, tiram sustento do lixo. Como em "Avenida Brasil",
novela da TV Globo que exibe seu último capítulo nesta sexta-feira
(19), Ninas, Carminhas e Jorginhos vasculham toneladas que, para eles,
representam muito mais do que lixo.
No lixão da "Taperinha", mais de 150 pessoas, entre crianças, jovens,
adultos e idosos, vivem do que tiram dos detritos. José da Silva e
Daniela Regina de Azevedo têm sete filhos e, assim como os personagens
Nilo e Lucinda, moram a poucos metros da entrada do lixão. "Se aqui
fosse limpo e cheiroso, como parece ser na novela, estava bom", diz
Daniela.
A casa da família foi construída por José com pedaços de madeira,
madeirite e outros materiais. Não há banheiro, e a água vem de uma fonte
encanada. A energia é escassa e sai de um gerador comprado pelo casal –
mas Daniela diz que não perde um capítulo da trama. "Depois da novela, a
luz acaba. Se o gerador ficar ligado, tenho que trabalhar dobrado",
conta José, que trabalha das 23h30 às 17h.
A renda mensal do casal é de cerca de R$ 1,6 mil. Enquanto trabalham, a
filha mais velha cuida das outras crianças. Para além da renda, as
reclamações de falta de assistência são várias. "Quando tive o primeiro
filho, a ambulância demorou mais de duas horas para vir me atender.
Depois, outros três filhos nasceram em casa, da mesma forma", diz
Daniela. Ela relata que os dois mais novos, de 2 e 3 anos, ainda não
foram registrados porque o cartório não aceitou o fato de as crianças
terem nascido numa casa. "Tem um processo há mais de nove meses rolando
para que as crianças possam ganhar o nome dos pais", diz
24 horas de trabalhoOs personagens do lixão de
"Avenida Brasil" aparecem trabalhando tanto de dia quanto de noite. No
lixão de Mongaguá é parecido: cada um trabalha a hora que quer; toda
hora chega lixo. "Ninguém passa fome trabalhando em lixão", afirma
Severino Amparo, que há 15 anos trabalha das 4h às 17h no local.
"Pessoas com dificuldades chegam e arranjam trabalho aqui. Não temos
como negar trabalho para pai de família", diz o catador.
Severino conta que passou 12 anos como funcionário de uma
transportadora. Após perder o emprego, começou a procurar uma nova
ocupação, mas a falta de experiência em outra área e sua "muita idade"
(37 anos na época) atrapalharam a busca por outras oportunidades. Com
dois filhos para sustentar, o catador e a esposa, Ivone Oliveira dos
Santos, passam o dia tirando plástico, papelão e metais do meio de
restos de comida, fraldas e carcaças. O casal consegue receber pelo que
vende cerca de R$ 400 por semana.
Catadora procura objetos de valor no meio do lixo (Foto: Silvio Muniz/G1)
O lixão da 'Taperinha' existe há mais de 30 anos. O local está
ambientalmente comprometido e um projeto da prefeitura pretende
desativá-lo para, futuramente, recuperar o lugar. Como alternativa para
os catadores, a prefeitura incentivou a criação de uma cooperativa, hoje
com 20 cooperados, mas a ideia não é aceita por boa parte dos
catadores.
Luiz Lucas da Silva e a esposa também tiram o sustento do lixão. Lucas, que é pedreiro de profissão, teve experiências com cooperativas, mas acha que ganhou pouco no sistema adotado. "Trabalhei quinze dias e recebi R$ 100. Prefiro tirar meu sustento sozinho no lixão. Na cooperativa, enquanto um trabalha quatro ficam sem fazer nada", acredita.
Luiz Lucas da Silva e a esposa também tiram o sustento do lixão. Lucas, que é pedreiro de profissão, teve experiências com cooperativas, mas acha que ganhou pouco no sistema adotado. "Trabalhei quinze dias e recebi R$ 100. Prefiro tirar meu sustento sozinho no lixão. Na cooperativa, enquanto um trabalha quatro ficam sem fazer nada", acredita.
Ele diz que há escassez de oportunidades na região. "A cidade não
oferece trabalho, não tem empresas, indústrias", avalia. O emprego só
chega até Praia Grande. De Mongaguá para baixo tudo é mais difícil. Quem
emprega não paga direito", diz o catador.
Para Lucas, a forma que o lixo é tratado poderia ser diferente. "Nos
Estados Unidos aproveitam o gás gerado nos lixões para ganhar dinheiro. O
lixo é separado do reciclável. Tudo vem limpo", compara. "Aqui é essa
zona. Imagina se não tem a gente aqui. Esse lixo, que levaria anos para
se desfazer, teria coberto tudo por aqui. Nosso trabalho é importante,
mas não temos equipamentos nem garantias para sobreviver ", diz Lucas.
Segundo os catadores, o último censo não passou pela Estrada da
Taperinha, onde mais de 30 famílias moram e vivem sustentadas pelo que
tiram do lixão. A maioria delas teria direito a receber ajuda de
programas assistenciais, mas, como o local em que vivem não é
regularizado, os moradores dizem não conseguir acesso aos benefícios.
Enquanto a novela vai revelando o final dos seus personagens, no lixão de Mongaguá
muitas famílias têm histórias que ainda estão longe de um final feliz,
à espera de assistência e da regularização dos terrenos em que vivem.
G1
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